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Artigo : Fruticultura tropical : uma alternativa para a agricultura de Rondônia
Data : 24/1/2010
Fruticultura tropical: uma alternativa para a agricultura de Rondônia
George Duarte Ribeiro*
As boas condições ambientais de clima e solo e a crescente demanda por frutas da região Amazônica credenciam a fruticultura como atividade econômica de elevado potencial para exploração agrícola em Rondônia, principalmente as fruteiras perenes como o cupuaçu, o açaí, a pupunha, o coco, a laranja, a banana, a goiaba, a manga, etc. Atualmente, já existem em Rondônia significativos pólos de plantios e produção de cupuaçu (Porto Velho), pupunha (Nova Califórnia), laranja (Rolim de Moura e Espigão do Oeste), castanha (Guajará-Mirim e Extrema), e a banana, que é cultivada praticamente em todo o Estado. Algumas fruteiras ditas anuais ou bianuais, de ciclo mais curto, como o abacaxi, maracujá, mamão e melancia, também vêm ganhando acentuada expansão.
Além destas frutas tropicais mais populares, algumas frutas da Amazônia ou nela presentes, como o araçá-boi, a graviola, o camu-camu, o taperebá, o abiu gigante, o abricó e o bacuri, dentre outras, são apreciadíssimas no mercado regional, tendo procura maior que a oferta, principalmente pelo ramo de sorveterias. Também frutas tropicais exóticas como a acerola (Malpighia glabra), o rambutam (Nephelium lappaceum) e o mangostão (Garcinia mangostana), têm mercado atraente e encontram em Rondônia condições propícias para cultivo. O mangostão (Figura 1), espécie da mesma família do bacuri e do abricó (clusiáceas), é muito comum no extremo oriente (China, Indonésia, Malásia, Tailândia), de onde é originário, sendo considerado lá como a “rainha das frutas”. Esta espécie adaptou-se tão bem na Amazônia que produz até mais rápido (aos 7-8 anos) do que em outros lugares onde é cultivada, e leva até 10 anos para produzir. Um detalhe interessante na reprodução desta espécie é que só apresenta flores femininas, e assim, a produção de frutos e sementes ocorre através de um processo de apomixia, onde não há fecundação (polinização), e, portanto, não há variedades na espécie.

Figura 1 - Mangostãozeiro de 7 anos de idade, no pátio do Residencial Cujubim em Porto Velho, RO
O rambutam (Figura 2), árvore frutífera tropical asiática, da mesma família do guaraná, da lichia e da pitomba (sapindáceas), produz rápido (em 3-4 anos) e seus frutos, que externamente apresentam alguma semelhança com o urucum, encantam “as crianças de todas as idades” com sua polpa translúcida, mucilaginosa, adocicada e extremamente agradável. Uma inconveniência desta fruteira é que apresenta plantas fêmeas, hermafroditas e machos, ou seja, plantas que só produzem flores femininas, plantas que apresentam flores perfeitas (com os dois sexos), e plantas que apresentam somente flores masculinas, sendo essas últimas indesejáveis, pois não frutificam, e isto só dá para identificar quando as plantas entram na maturidade (3 - 4 anos) e iniciam processo reprodutivo. Nesta ocasião, como solução para este problema, pode-se fazer uma poda drástica (recepa) nas plantas machos e, quando das rebrotações, fazer enxertia com material botânico (gemas ou borbulhas) provenientes de matrizes comprovadamente de boa produção. Também há conveniência de, quando a planta alcançar uns 4 metros de altura, fazer a desbrota da gema apical (“capação”), para forçar a planta a desenvolver brotações laterais, e, assim, formar uma copa frondosa, ao invés da árvore espigada que normalmente se desenvolve se não for feito esta prática, o que acarreta maiores dificuldades no manejo, na prática de alguns tratos culturais, e na própria colheita.

Figura 2 - Rambutanzeiro de 6 anos de idade na propriedade do Sr. Selvino Sordi,
no Projeto RECA, distrito da Vila Nova Califórnia, Porto Velho - RO
Os frutos grandes de cupuaçu (1,5 kg) alcançam preços em torno de R$ 1,00. Aqui se abra um parêntese para salientar que Rondônia já produz em torno de mil toneladas de polpa de cupuaçu por ano, que os produtores mais organizados (aqueles que tem uma estrutura mínima de despolpamento) vendem a R$ 2,50 / kg. Um hectare de cupuaçuzeiros adultos (mais de 5-6 anos de idade) bem conduzido, produz, em ano de boa produção, aproximadamente 1500 kg de polpa (em torno de 4500 frutos / ha / ano).
A pupunheira é palmeira de grande rusticidade e rápido desenvolvimento, sendo que aos 3-4 anos já está produzindo frutos, os quais são consumidos “in natura” (cozidos) e se beneficiados podem ter aproveitamentos diversos (farinha, ração, óleo). A produção média da espécie situa-se em torno de 3 mil cachos / ha /ano e o cacho bem formado está sendo comercializado em Porto Velho por cerca de 5 reais. A planta oferece ainda a possibilidade de exploração de palmito de ótima qualidade, já a partir dos 2 anos de idade, estando a exploração com este fim, em franca expansão pelo Brasil afora.
O açaí (Figura 3), atualmente, é “a fruta da moda” no sudeste brasileiro, e grandes quantidades de “vinho” – como é chamada a polpa do açaí diluída em água – estão sendo destinadas às grandes capitais daquela região, como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, para ser consumido como energético pelos adeptos da vida natural que cultuam a boa forma física do corpo. O “vinho” de açaí é muito popular em toda a Amazônia, principalmente em Belém, onde faz parte da dieta básica da população.

Figura 3 - Açaizeiro em torno de 10 anos de idade ornamentando pátio do prédio do
Tribunal de Justiça Federal em Porto Velho, RO
O araçá-boi e o bacuri (este último muito apreciado em Belém-PA) são frutos de aroma e sabor muito agradáveis, e bem característicos, e, se trabalhados nos aspectos de melhoramento vegetal e de marketing, reúnem boas condições de serem explorados comercialmente em Rondônia.
O camu-camu (Myrciaria dubia), mirtácea muito comum nas várzeas da Amazônia, surge como preciosíssima fonte de vitamina C, apresentando teores superiores até mesmo aos da acerola, tida como a fruta de maior teor desta vitamina. Daí, a polpa do camu-camu estar sendo muito procurada para ser consumida na forma de suco, por ser considerada um sucedâneo da vitamina C sintética, largamente comercializada nas farmácias. Os Estados Unidos importam camu-camu da América do Sul (Peru) para a produção de “camu-plus”, que são tabletes de vitamina C natural. Trata-se o camu-camu de arbusto relativamente fácil de cultivar por ser bastante rústico e bem adaptado às condições prevalecentes na Amazônia, e embora não seja planta de conformação tão regular como a jabuticabeira, produz frutos como esta (cauliflora), de padrão idêntico, variando na cor (frutos mais rosáceos e violáceos) e no sabor, sendo o camu-camu extremamente ácido, não se prestando, portanto, para consumo “in natura”.
Todavia, a expansão da fruticultura em Rondônia precisa vir acompanhada de incentivos para a implantação de agroindústrias, de modo a agregar valor às frutas, evitar desperdícios, e abrir perspectivas de colocação dos produtos da fruticultura em outros grandes centros consumidores do país e até mesmo do exterior. Estas agroindústrias devem, preferentemente, ser dirigidas por cooperativas ou associações de produtores rurais, de modo a permitir que estes aumentem as chances de tornar mais lucrativas suas atividades produtivas.
Aos agricultores que desejam enveredar pelos caminhos da fruticultura, recomenda-se que, alem do associativismo, em primeiro lugar procurem ter uma visão a mais ampla possível do mercado, quando da escolha das espécies com que vão trabalhar, considerando racionalmente as vantagens e desvantagens próprias de cada uma delas. Em segundo lugar, que procurem trabalhar com as espécies selecionadas, de preferência, em Sistemas Agroflorestais (consórcios) (Figura 4), compatibilizando plantas de ciclo curto, médio e longo, esquema este que tem o mérito de proporcionar renda ao produtor enquanto espera pela produção das plantas de ciclo mais longo, além de contornar as dificuldades que se apresentam quando os preços de determinados produtos estão em baixa, situação que se agrava no caso de se trabalhar com monocultura. A utilização de uma mesma área com diversas culturas ao mesmo tempo, é a condição mais racional de exploração agrícola na Amazônia pelas questões de preservação do solo e manutenção do equilíbrio ecológico que resultam na sustentabilidade da agricultura.

Figura 4 - Sistema Agroflorestal de 3 anos de idade consorciando cultivos de Teca x Café x Cupuaçu,
na propriedade do Sr. Bertoldo, no km 17 da linha 184 – N , em Rolim de Moura, RO
Ainda, na exploração frutícola, deve ser procurada também a compatibilização de espécies que produzam em diferentes épocas do ano, de modo que a mão-de-obra, a produção e a renda, sejam bem racionalizadas ao longo do período. Por exemplo: a graviola, o açaí-de-touceira, o abricó, o abiu, o caju, produzem principalmente nos meses de agosto e setembro; a acerola, o camu-camu, o araçá-boi, se irrigados, produzem o ano todo, e o cupuaçu, a pupunha e a castanha, como a maioria das fruteiras amazônicas, produzem principalmente nos três primeiros meses do ano. Assim, espécies frutíferas destes grupos devem ser selecionadas para cultivo simultâneo, de modo a que o agricultor tenha uma atividade produtiva praticamente ininterrupta durante todo o ano e a oportunidade de estabelecer melhor seus negócios.
Literatura consultada
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Cupuaçu: a espécie, sua cultura, usos e processamento. Giorgini Augusto Venturieri. Belém: Clube do Cupu, 1993. 108 p.
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Plantio de açaizeiros. José Antonio Leite de Queiroz; Silas Mochiutti. Macapá-AP. 2001 Embrapa Amapá. Comunicado técnico 55. 8 p.
Manual Agroflorestal para a Amazônia. Dubois, J. C. L.; Viana, V. M.; Anderson, A. B. Rio de Janeiro: REBRAF, 1996. V. 1.
Recomendações para o cultivo de espécies perenes em sistemas consorciados. NOGUEIRA, O. L., CONTO, A. J. de, CALZAVARA, B. B. G., TEIXEIRA, L. B., KATO, O.R., OLIVEIRA, R. F. de Belém: EMBRAPA/CPATU, 1991. 61 p. (Documentos, 56).
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El árbol al servicio del agricultor : manual de agroforesteria para el desarrollo rural. Guia de espécies. F. Geilfus. Turrialba: CATIE, 1989. v. 2. 778 p.